A realidade dos migrantes na periferia de São Paulo foi o assunto em destaque na edição n° 29 do Jornal Cantareira, que circulou em junho de 2001.
“A questão da migração é um fenômeno que atinge o mundo todo. No Brasil, um dos principais motivos que obriga o povo sair da sua terra é a questão de sobrevivência. As políticas governamentais adotadas nos últimos 30 anos forçaram a saída do povo do campo concentrando-o nas grandes cidades, formando favelas, cortiços, ou vivendo nas ruas e praças, formando imensos bolsões de pobreza”, apontava a chamada da capa.
Na mesma edição, o jornal noticiava que nas ruas de São Paulo viviam cerca de 8.700 pessoas, mas que a prefeitura só teria a capacidade de oferecer 5 mil lugares para que dormissem e tomassem banho, especialmente durante o período do inverno. Além de explicar o funcionamento dos albergues oferecidos pela prefeitura, a reportagem contava a experiência de um abrigo da Comunidade Metodista, nas proximidades da Avenida 23 de maio. “Nossa preocupação é o atendimento à necessidade imediata dos moradores de rua que é a de ter onde dormir, pois durante o dia normalmente encontram onde ficar com mais facilidade”, explicava Eliene de Souza Bispo, coordenadora do abrigo.
Outros destaques da área social foram o Congresso Nacional de Cateadores de Rua, que reuniu 1.500 pessoas em Brasília; a luta dos moradores da periferia pelo estabelecimento de conselhos populares de saúde, a crise de falta de água no planeta, a entrada em vigor da lei estadual que proibia o uso do amianto em São Paulo e a dificuldade de atuação dos conselhos tutelares. “As condições de trabalho e de funcionamento em que se encontram a maioria dos mesmos é deplorável”, denunciava a reportagerm.
Na contracapa do jornal, dois textos analisavam a crise energética pela qual passava o país. Para o sociólogo Cândido Grzybowski, “o fio que liga a crise energética e corrupção parece alta tensão, com risco de eminente curto circuito”, analisou, criticando a submissão política do país aos ditames da globalização. Já para o doutor em energia Ildo Luís Sauer, “normalmente há uma queda adicional de 30% a 40% para alimentar as usinas até a volta das chuvas em dezembro. Sem redução drástica do consumo, o país vai parar totalmente por falta de energia antes do fim do ano”, sentenciou.
Em relação às atividades relacionadas às comunidades religiosas, o jornal tratou da realização da 16ª Semana do Migrante, que abordou a questão das drogas. “Os migrantes encontram-se numa situação de fragilidade diante ao apelo das drogas, seja como usuário, seja para aferir ganhos com a mesma. A própria situação de dispersão, gerada pela quebra de referenciais de identidade, isolamento, instabilidade no trabalho ou mesmo o desemprego, expõe o migrante a uma desintegração ainda pior”, analisava a reportagem.
O jornal também noticiou a realização da Festa da Unidade e publicou textos sobre o sentido da Eucaristia, a articulação política das comunidades cristãs, juventude e espiritualidade e a história das festas juninas. “O símbolo que marca a festa junina desde o século 4° é a fogueira de São João. Com o passar do tempo, o povo foi incorporando a dança de quadrilha, as canções regionais, o casamento caipira e as comidas típicas de cada região”, apontava o texto.
No espaço das cartas dos leitores, o aumento da tiragem do jornal, a partir da edição de março/abril daquele ano, não passou despercebida. “O Jornal Cantareira aumentou de 5 para 7 mil exemplares, é sinal que tem muita gente lendo. É bonito vê-lo dentro do fichário do estudante, em cima da cama, na mesa da cozinha junto com a farinha, o leite, próximo do óculos da vovó, na mesa do bar”, apontava o padre Edson Jorge Feltrin, então pároco da igreja Santa Terezinha.
A edição n° 29 do Jornal Cantareira, distribuído em 7 mil exemplares, teve os trabalhos de Aureliana Gabriel, Cilto José Rosembach, Miriam de Oliveira, Angélica Mortel, Juçara Terezinha, JAL, José Antonio de Oliveira, Jánis Kunrath e José Eduardo de Souza, além de textos e fotos dos seguintes colaboradores Luiz Antônio Zimermann, Anesino Sandice, padre Alberto Abib Andery, Marcelo Barros, Alice Aparecida dos Santos, Rubinho Bastos, Mario Queroz, padre Jo´se dos Passos, Luciney Martins, padre Carlos Alves Ribeiro, Cândido Grzybowski e Ildo Luís Sauer.





