Jornal Cantareira – n° 9 – periferia abandonada em destaque

A edição n° 9 do Jornal Cantareira, que circulou em novembro de 1998, destacava, como nos meses anteriores, o abandono da periferia de São Paulo por parte dos administradores públicos. A situação retratada naquela edição era a de um buraco aberto há mais de quatro meses no Jardim Elisa Maria.

Capa da edição n°9 de novembro de 1998

Na contra-capa do jornal, reportagem de página inteira explicava as atribuições do Conselho Tutelar e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), criado pela lei federal n° 8.096, de 13 de julho de 1990. “Oito anos são passados e percebemos que ainda há muito por fazer. Milhares de crianças e adolescentes ainda são vítimas de violências, não têm acesso à escola e o trabalho infantil ainda é uma triste realidade em nosso país”.

Ao fazer menção à eleição dos novos conselheiros tutelares, em 7 de novembro daquele ano, o jornal resgatou os seis anos de atuação do Conselho Tutelar da Freguesia do Ó. “Ainda há muito por fazer em relação aos problemas infanto-juvenis de nossa região. A caminhada está sendo feita e já obtivemos muitas conquistas, com a participação de inúmeras pessoas”.

Em artigo publicado na página 3, padre Alberto Abib Andery analisava os resultados das eleições presidenciais e governamentais, que elegeram Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas, respectivamente, a tais cargos. “A lição mais importante que sai das urnas é que a democracia não está só nas eleições, mas principalmente no poder do povo. A cada eleição que passa, esse poder vai crescendo em lucidez e percepção crítica”.

O editorial do jornal também fez referência às eleições daquele ano. “Passada a agonias das urnas, esperávamos que os políticos eleitos fizessem jus à nossa confiança e ao nosso voto. Mas ficou para nós a certeza de que muitos políticos de ‘boa vontade’ liderados por FHC apoiaram o pacote de ajuste fiscal, cujo maior peso, como sempre, cairá na cabeça dos mais pobres”.

Nas páginas dedicadas às mobilizações sociais foi apresentado um histórico sobre a Serra da Cantareira, que à época ocupava 7.900 hectares, fornecia 52% da água utilizada na cidade. “Cantareira foi o nome dado pelos tropeiros que faziam o comércio entre São Paulo e as outras províncias do país, nos séculos 16 e 17, por causa da grande quantidade de nascentes e córregos encontrados na região. Naquela época era costume armazenar águas em jarros, chamados cântaros, denominando-se cantareira as prateleiras onde os cântaros eram guardados”.

No espaço dedicado às comunidades religiosas na região houve destaque para um breve histórico da Paróquia Nossa Senhora das Dores, em Taipas, que no mês anterior realizara um trabalho missionário de visita a famílias; também foi notícia a missa que marcou o surgimento do Setor Cântaros, com a presença de mais de 800 pessoas, em outubro; e o início da campanha nacional em favor da evangelização também esteve nas páginas do jornal.

Em outra reportagem, assinada pelo padre Daniel Francis McLaughlin, foi contado os 22 anos de atuação dos Missionários de Maryknoll. “É um grupo da Igreja Católica dos Estados Unidos, fundado em 1911 e que trabalha em 25 países da Ásia, África e América Latina”, e que chegou ao Brasil em 1976 e a São Paulo, inicialmente, em São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo; Em 1996, chegariam à Região Brasilândia, nas paróquias do Setor Cântaros, sendo um dos missionários o próprio padre Daniel.

Na página 2, além da ficha técnica do jornal, publicou-se a agenda de atividades populares, perfis de artistas sertanejos, além da carta dos leitores. “O Jornal Cantareira é aquilo que se espera de um jornal alternativo, pois aborda a realidade em que vivemos na periferia, a realidade nua e crua sem camuflagem”, expressou Cícera, moradora da Vila Brasilândia.

Trabalharam para a produção da edição n°9 do Jornal Cantareira, distribuído com 5 mil exemplares: Aureliana Gabriel, Cilto José Rosembach, Miriam de Oliveira, padre Abib Andery, Bernardete Toneto, padre Daniel McLaughlin, Jánis Leonícia, Juçara Terezinha, José Antonio de Oliveira, Valdir Ferreira da Silva, Rubens Lobo, Emídio Vicente Neto, Henrique Deloste e José Eduardo de Souza.