“Serviço mal feito, buracos continuam”. Essa foi a manchete da edição n° 12 do Jornal Cantareira, que circulou entre abril e maio de 1999, e que voltou a denunciar o descaso da administração Celso Pitta no trato com a periferia da cidade. A chamada da capa indicava a postura reativa do poder municipal.
“As ruas esburacadas somente são visitadas pelos operários das administrações regionais quando algum fotógrafo resolve registrar com sua objetiva a profundidade do abandono… O serviço foi realizado, não restam dúvidas. Porém, a qualidade do serviço… Qualquer pessoa que passa por ali, vai perceber que o serviço foi mal feito… Até quando vamos ter que suportar tamanho descaso da Administração Regional?”, apontava a foto-legenda da capa.
Mantendo sua tradição, o jornal também noticiou as lutas populares com destaque para as mobilizações contra o desemprego no país. “Na cidade de São Paulo mais de 50 mil pessoas lotaram o Vale do Anhangabaú na tarde do dia 1° de maio… a política neoliberal e o projeto de globalização causam desemprego de milhões de trabalhadores, deixando grande maioria da população numa situação de desespero… um dos maiores desafios é desenvolver jeitos alternativos de politização das massas, que são usadas como ‘coisas’ que se pode comprar e vender, na hora que o político safado acha melhor para o proveito próprio”, analisava um dos textos.
Outra reportagem destacava o início das obras de canalização do córrego Rio das Pedras, algo que poderia ocasionar desalojamento de muitos favelados, na Vila Brasilândia, em nome de uma suposta melhoria no trânsito da cidade. Outro texto denunciava a grilagem de terras no Tremembé, zona norte, e nele se apresentou dicas para que as pessoas não comprassem terras griladas por engano.
Nas páginas sobre as comunidades religiosas na região, noticiou-se a realização de um encontro pela Paz na Comunidade São José, no Jardim Elisa Maria; a inauguração de uma videoteca comunitária na Paróquia Bom Pastor, no Jardim Carumbé; Houve também o segundo capítulo da simulação de entrevista sobre o Evangelho de Mateus, além de reflexões sobre a organização da comunicação nas comunidades, o sentido do ecumenismo e a realização da 11ª Semana do Migrante, que teve por tema “Pão em todas as Mesas – o migrante e o desemprego”.
Reportagem temática na contra-capa do jornal, sobre a atuação da Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes (FCD), indicava as dificuldades enfrentadas pelos deficientes físicos no país. “mais de 10% da população (15 milhões de pessoas) possuem algum tipo de deficiência e menos de 3% dessa população (450 mil pessoas) são atendidas, quer pelos órgãos públicos ou pelos particulares. As pessoas portadoras de deficiência (PPD), em sua maioria, são marginalizadas, excluídas de qualquer forma de participação na sociedade…”.
Os artigos assinados daquela edição retratavam as mobilizações dos trabalhadores em 1º de maio, o desemprego, o pagamento da dívida externa e o arrocho salarial do governo Fernando Henrique Cardoso. No editorial, o jornal celebrava um ano de circulação, após superar dificuldades financeiras. “Se hoje estamos completando um ano de existência, e com certeza resistimos na praça, é porque você leitor nos dá ânimo e a certeza de que estamos no caminho certo”.
A julgar pela carta dos leitores, o caminho percorrido estava sendo bem trilhado. “Gosto muito do Jornal Cantareira porque trás matérias que são importantes para o trabalho de pesquisa. Na escola, nós utilizamos os assuntos do Jornal Cantareira, que falava sobre o desemprego. Jornal mesmo é aquele que trás matérias com informações que ajudam no estudo e na pesquisa nas escolas, e não aqueles que só têm propagandas”, expressava Vânia de Oliveira Souto, do Jardim Carumbé.
A edição n° 12 do Jornal Cantareira teve tiragem de 5 mil exemplares, com os trabalhos de: Aureliana Gabriel, Cilto José Rosembach, Miriam de Oliveira, padre Abib Andery, Angélica Mortel, Chad Ribordy, Evandro Mesquita, Juçara Terezinha, José Antonio de Oliveira, José Bortolini, José Eduardo Martins Cardoso (atual ministro da Justiça), Marcos Arruda, Rubens Lobo, Rafael Rodrigues, Pedro Lima Vasconcellos, Tereza Lajolo, padre Valdiran Ferreira, Vicente Paulo da Silva (Vicentinho), José Eduardo de Souza, Emídio Vicente Neto e Evair Alvarenga.





