“Subprefeituras melhoram atendimento à população”. A manchete da edição n° 19 do Jornal Cantareira, que circulou em junho de 2000, ilustra a posição do jornal na defesa da criação das subprefeituras na cidade de São Paulo, iniciativa, à época, prevista na lei orgânica do município e que dependia da regulamentação da Câmara dos Vereadores e estava condicionada a uma dotação orçamentária adequada.
Em editorial, o jornal relativizava que o afastamento do então prefeito Celso Pitta e a posse do vice-prefeito Regis de Oliveira resolveria os muitos problemas da cidade. “Vamos dar uma olhada nas pessoas que o Regis escalou para a prefeitura… Não tenho nada contra as pessoas do atual escalão do prefeito, mas observe, são pessoas ligadas à velha prática da política que deixou a cidade do jeito que hoje se encontra. Não basta trocar apenas as pessoas, por melhor que sejam intencionadas”.
Em relação às lutas sociais reportadas naquela edição, destaque para a realização do Plebiscito Nacional sobre a Dívida Externa, que se realizaria de 2 a 7 de setembro daquele ano. “A ideia da campanha é levar o debate à opinião pública e às bases para que a população tome consciência de que a dívida pública é uma das principais causas do aprofundamento das dividas sociais e ecológicas”.
O jornal também voltava a denunciar o descuido da prefeitura com ruas e vielas da periferia; a falta de democracia na concessão de canais de mídia – “85% das emissoras de rádio, 67% dos canais de TV e 92% dos veículos impressos são da iniciativa privada”; o pouco caso com o tratamento de lixo na cidade e os efeitos disso na qualidade. Também foi publicada uma reportagem sobre o desrespeito ao direito das mulheres, nos 500 anos de história do Brasil.
Nas páginas destinadas às atividades das comunidades religiosas na periferia foram feitas homenagens à irmã Maria Thereza Dantas, que completava 50 anos de vida religiosa, sendo uma das fundadoras da Obra Social Nossa Senhora das Dores, no Jardim Vista Alegre; e a dom Angélico Sândalo Bernardino, que publicou seu texto de despedida da Região Episcopal Brasilândia, estimulando a continuidade das mobilizações sociais.
“Não adianta ficarmos em atitude negativa, lamentando-nos da violência. Precisamos multiplicar gestos de solidariedade, como a ‘Caminhada pela Paz e contra a violência’, que, de fato, tenham compromisso histórico, concreto, com trabalhadores, com classes populares. Ao partir, já com saudades, desejo-lhes solidariedade, paz, que brotam do coração de Deus nosso Pai”, expressou o bispo transferido à então recém-criada Diocese de Blumenau (SC).
Também foram publicados textos sobre a função da Pastoral da Comunicação, sentido da Eucaristia, atuação da Pastoral da Juventude contra a violência, Santo Antônio, Pastoral da Habitação e Pastoral dos Migrantes, além de uma reflexão sobre o sentido do amor, em alusão ao Dia dos Namorados. “É interessante que a palavra ‘paixão’ vem da palavra latina ‘passus’, que quer dizer ‘sofrer’. Em latim, então, o primeiro sentido de ‘paixão’ não é sexual, não é de beijos, ou de abraços, mas é de sofrimento”, explicava o artigo de Chad Ribordy e Angélica Mortel.
Na contracapa do jornal, reportagem de página inteira explicava o sentido das tradições das festas juninas no Brasil, introduzidas no país pelos portugueses, com a chegada da família real em 1808, e que foram dinamizadas por indígenas e escravos.
Como de praxe em todas edições, os leitores podiam encontrar a agenda de atividades sociais e pastorais, além da sessão de cartas. “Gostaria de parabenizar todos que participam na publicação deste jornal. Enquanto a grande mídia age como um instrumento de propaganda para este sistema podre de governo atual, é muito importante ter jornais alternativos como o Jornal Cantareira mostrando a verdade. São estes jornais que vão unir o povo brasileiro na luta social. Que vocês continuem apoiando e informando as lutas populares para que o Brasil se torne um país mais justo e democrático”, disse David Kane, de João Pessoa, na Paraíba.
Distribuída em 5 mil exemplares, a edição n° 19 do Jornal Cantareira teve os trabalhos de Aureliana Gabriel, Cilto José Rosembach, Miriam de Oliveira, Angélica Mortel, Juçara Terezinha, JAL, José Antonio de Oliveira, José Eduardo de Souza e Anilson Brito, além de textos dos seguintes colaboradores: Luiz Zimermann, padre Alberto Abib Andery, padre Valdiran Ferreira, Kathleen Bond, David Kane, José Ignácio López Vigil, dom Angélico Sândalo Bernardino, monsenhor Arnaldo Beltrami, Chad Ribordy e Cesar Augusto Alves Bezerra.





