Em entrevista ao programa Meu Caro Amigo, da comunitária Cantareira FM 87,5, no sábado, 12 de novembro, João Vicente, morador do Jardim Guarani, na zona noroeste de São Paulo, denunciou que as obras de canalização de um córrego em uma favela do Jardim Guarani (entre as ruas Itambé do Mato Dentro e José da Costa Pereira) estão incompletas.
“Ao invés de fazerem a obra, está se fazendo alguns remendos. É como se você me visse com uma calça rasgada e sentisse a necessidade de me ajudar para eu comprar uma calça nova. Ai, eu pego essa verba e compro alguns pedaços de tecido para fazer o remendo dessa calça. É o que está acontecendo com aquela obra do PAC. Deveríamos ter um córrego canalizado, mas na verdade não vamos ter nada. É alguma coisa para inglês ver, como diz o ditado antigo”, disse.
De acordo com o morador, que teve contato com a equipe de execução das obras, os trabalhos serão encerrados em breve. O trecho que deveria ser completamente canalizado tem cerca de 1.000 metros de extensão, mas as tubulações de canalização só passaram em sete vielas que cruzam o córrego, e no final das obras, já próximas à favela Tiro ao Pombo. Assim, ao invés de 1.000 metros canalizados, instalaram-se sete trechos de tubulação, distados entre si por cerca de 100 metros, onde o córrego segue correndo ao ar livre.
As denúncias feitas pelo morador João Vicente foram ratificadas pelo comunicador Gilberto Cruz, apresentador do programa, que visitou o local e fez fotos das obras.
João Vicente lamenta que poucos tenham se preocupado ou desconfiado que a obra a ser entregue possa estar incompleta. “Infelizmente, não há mobilização nenhuma. O povo vê aquilo lá e acha que está tudo normal. Menos pra mim. Eu já questionei a responsável da obra em uma reunião e disse que estão fazendo uma grande besteira ali, fazendo gambiarras quando deveria ser feita uma obra completa. Disse aos responsáveis da obra que vamos ter muitos problemas quando começarem os tempos de chuva por conta da gambiarra que está sendo feita”.
Além de incompleta, obra está atrasada
Conforme apuração da redação do Site Cantareira a urbanização das favelas do Jardim Guarani e do Tiro ao Pombo estão incluídas no mesmo lote (lote 13) do Programa de Urbanização de Favelas e Regularização de Loteamentos Irregulares Precários da Coordenadoria de Habitação da Secretaria Municipal de Habitação (SEHAB), viabilizado com recursos municipais e do governo federal através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Em vias de ser “finalizada”, a obra do lote 13 já está com 11 meses de atraso. De acordo com reportagem publicada no site da Prefeitura de São Paulo em dezembro de 2009, as obras no Jardim Guarani e na Favela Tiro ao Pombo deveriam terminar em dezembro de 2010, beneficiando 1.700 famílias, com a implantação de redes de água e esgoto, pavimentação, drenagem e iluminação e canalização dos córregos, implantação de paisagismo com áreas de lazer e construção de unidades habitacionais.
Por enquanto, esse cenário está parcialmente concluído. Em 12 de junho deste ano, o prefeito Gilberto Kassab entregou 60 unidades habitacionais da favela Tiro ao Pombo. Na favela do Jardim Guarani o córrego não foi canalizado, o cenário parece distante do prometido paissagismo e ainda há trechos sem pavimentação.
R$ 9milhões acima do previsto inicialmente
Àqueles que pensam que a “economia de tubulações” pode ter deixado a obra mais barata para os cofres públicos se enganam. Em consulta ao contrato firmado entre a Secretaria Municipal de Habitação e a Construtora Gomes Lourenço, responsável pela execução dos trabalhos, constata-se que o custo final saiu R$ 9 milhões acima do previsto inicialmente.
O custo inicial das duas obras do lote 13 era de R$ 38.149.814,03, mas o valor aditado no contrato assinado em 26 de fevereiro de 2008 foi de R$ 47.246.429,77. No contrato, o início da obras consta para março de 2008, com entrega após 33 meses, na prática, dezembro de 2010, prazo não cumprido, portanto.
Porém, na placa da prefeitura de São Paulo alusiva à obra instalada no Jardim Guarani aparece que a obra estava orçada em janeiro de 2008 (antes da assinatura do contrato) em R$ 22.921.339, 93, com prazo de finalização para 24 meses (no contrato assinado esse era o período proposto, mas o aditado foi 33 meses).






