Com roupas coloridas, sorriso fácil, animação e disciplina, dezenas de crianças e adolescentes ‘invadiram’ no sábado, dia 13, o programa ‘Brasilândia Encanta’, na comunitária Cantareira FM 87,5, para apresentar o Jongo, conhecido também como ‘avô do samba’, uma manifestação cultural diretamente ligada às raízes africanas no Brasil.
Meninos e meninas, ao som de palmas e instrumentos produzidos com materiais naturais, cantaram pontos de jongo, como ‘meu cachorrinho foi no mato cassá, que que ele trouxe, boa sinhá’. Eles fazem parte do projeto “Chão do Meu Terreiro”, desenvolvido pelo grupo de jongo Sambaqui, que tem atividades no Jardim Guarani, na periferia da zona noroeste, sob a orientação de Rosângela Macedo, Lobo e Dimas.
“A gente não é um grupo de representação, não é, digamos, essencialmente artístico, nosso objetivo é manter a cultura. Nosso foco é a cultura afrobrasileira do sudeste, que a gente chama hoje de afrocaipira, porque trabalhamos principalmente com três batuques de São Paulo: o jongo, o samba rural e o batuque de umbigada. São batuques de origem africana, das etnias bantu, que vieram aqui para o sudeste. No Sambaqui, achamos que tudo isso faz parte da nossa história individual. Sentimos a necessidade de nos encontrar pra dançar, para valorizar o conhecimento dos nossos avós, dos nossos pais, a história da nossa família”, explicou Rosângela aos apresentadores Roze Santos e José Eduardo.
Ainda segundo Rosângela, no Chão do Meu Terreiro as culturas africana e indígena, bases da formação do povo brasileiro, são resgatadas pela lembrança das histórias míticas contadas de pai para filho, culinárias e sotaques típicos, bem como com as reflexões sobre as peculiaridades de convivência em cada lugar do país.
Dinâmica e os instrumentos
Uma roda de jongo completa dura uma noite inteira e acontece com mais frequência no mês de junho, durante as festas juninas, em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Começa com um ponto de abertura, passa por pontos diversos, como a visaria (que fala do cotidiano) e termina com o ponto de fechamento. Todos os participantes puxam um ponto, geralmente fazendo uso de uma linguagem metafórica.
Lobo, que participa de grupos de jongo desde os 16 anos, explicou detalhes sobre os instrumentos do jongo. “São feitos com barricas, que são barris de vinho, de cachaça, e daí com pele de couro ou pele de cabra a gente cobre uma das extremidades do barril; com o prego, que é um instrumento que se afina na fogueira, até ele pegar a tonalidade ideal para fazer o jongo. Tem instrumento que é feito em tronco escavado, como esse tambú que está aqui na minha mão, geralmente são madeiras de árvores caídas, tira-se todo o miolo da madeira até varar o tronco inteiro, cobre-se uma extremidade e vira um tamborzão. No jongo, a gente tem a puita que é um ancestral da cuíca. Tem um som bem grave. Também é feito com barril ou com tronco de madeira”, detalhou.
Fundamental para o bom ritmo do jongo é a voz. “A gente produz a nossa música. Temos um instrumento maravilhoso que é a nossa voz, nosso corpo para tocar um instrumento. Muitas pessoas, às vezes só consomem música, não produzem; se entopem e não deixam a imaginação trabalhar, sua voz fluir”, opinou Rosângela.
Encarando preconceitos e limitações
Ao enaltecer o trabalho realizado pelo grupo Sambaqui, José Eduardo e Roze Santos convidaram Rosângela a falar sobre os preconceitos que os vivenciadores do jongo sofrem, na tentativa de disseminar o resgate da cultura.
“A gente não é descendente de escravo, é descendente de africano. Os nossos ancestrais africanos ou indígenas conviviam em comunidades, toda a vida é ritmada. A gente é um povo cantante. Somos considerados o som em pé. Fomos esquecendo de que essa vibração do som é que harmoniza o nosso dia a dia. Infelizmente, quando a gente se reúne para cantar, é taxado de vagabundo, que quer levar a vida na flauta. Nós somos flauta! Levar a vida na flauta é levar a vida harmoniosamente e assim, essa harmonia vai me conduzindo, fazendo que eu olhe com respeito, com admiração pelas coisas: gente, fogo, pássaro, terra, água, fogo”, opinou Rosângela.
No Jardim Guarani, as condições para a realização das rodas de jongo ainda não são as ideais, segundo Rosângela. Os encontros acontecem em uma laje coberta, mas o ideal seria um espaço de chão de terra, para que se fizesse a fogueira dedicada à confecção dos instrumentos e um ambiente maior para convivência.
As limitações, porém, não desanimam os participantes do Sambaqui, que todos os sábados, das 19h às 22h, se reúnem para ensaios, aberto a todos interessados, na laje do número 470, da Rua Itambé do Mato Dentro, no Jardim Guarani, além de irem a rodas de jongo em outras cidades e desenvolverem atividades de formação neste espaço durante a semana e aos sábados.
“Hoje o Brasilândia Encanta marcou um gol de placa trazendo vocês aqui”, afirmou José Eduardo ao final do programa. Mais do que nunca, o programa de “todos os ritmos, todas as vozes e todos os sons da comunitária Cantareira FM 87,5”, que vai ao ar aos sábados, das 12h às 14h, com reprises às quartas, das 13h às 15h, acertou o ritmo.





